A montadora chinesa BYD, maior fabricante mundial de veículos elétricos, deu um passo importante para consolidar sua presença na América Latina ao instalar uma fábrica no Brasil, ocupando o antigo complexo da Ford em Camaçari, na Bahia. O investimento estimado gira em torno de 5,5 bilhões de reais, destinados à construção de três unidades no local: uma fábrica de veículos de passeio, outra para produção de ônibus e caminhões elétricos e uma terceira voltada ao processamento de baterias de fosfato de ferro-lítio, tecnologia mais segura e barata que a usada em baterias convencionais de íon-lítio.
O projeto prevê uma capacidade inicial de produção de 150 mil veículos por ano, com potencial para chegar a 300 mil unidades em uma segunda fase, além da expectativa de gerar até 20 mil empregos diretos e indiretos na região. A iniciativa foi saudada como marco para a indústria automotiva brasileira e considerada estratégica tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental, já que impulsiona a transição para veículos menos poluentes.
Entretanto, o processo de implantação da fábrica enfrentou sérios contratempos. No fim de 2024, fiscais do Ministério Público do Trabalho flagraram 163 trabalhadores chineses em condições degradantes, submetidos a jornadas exaustivas, alojados em locais precários e com passaportes retidos. O caso ganhou repercussão nacional e internacional, levando o governo brasileiro a suspender a liberação de novos vistos para trabalhadores estrangeiros vinculados à obra e a BYD a romper contrato com a construtora responsável pelas contratações. Após o escândalo, a montadora realocou os trabalhadores para hotéis, assumindo a responsabilidade pela conclusão das obras sob fiscalização mais rigorosa.
Apesar da crise, a BYD iniciou, em regime de pré-montagem (SKD), a produção local de alguns modelos, como o Dolphin Mini e o Song Plus, montando veículos a partir de peças e conjuntos semi-montados vindos da China. Em julho de 2025, a fábrica realizou a cerimônia oficial de inauguração da linha de montagem do Dolphin Mini, primeiro carro elétrico da marca produzido em solo brasileiro, embora ainda em fase de pré-série e sem volume significativo de produção.
Atualmente, a fábrica opera parcialmente, com previsão de estar plenamente funcional apenas no final de 2026, resultado dos atrasos causados tanto pela polêmica trabalhista quanto por dificuldades logísticas e climáticas. Inicialmente, a BYD havia prometido empregar cerca de 10 mil pessoas diretamente na primeira etapa, mas o contingente atual é bem menor, com pouco mais de mil trabalhadores brasileiros envolvidos nas atividades fabris.
Sindicalistas da região expressam receio de que a planta funcione apenas como centro de montagem leve ou distribuição, sem gerar o impacto industrial robusto esperado. A preocupação é que o alto grau de automação e o uso de kits pré-montados limite o desenvolvimento de fornecedores locais e a criação de empregos mais qualificados. A BYD, porém, reafirma seu compromisso com a nacionalização progressiva dos componentes, incluindo o desenvolvimento de motores híbridos flex e a instalação de um centro de pesquisa e desenvolvimento no Brasil.
Apesar das dificuldades, a presença da BYD tem movimentado o mercado automotivo brasileiro. Em 2024, a empresa vendeu cerca de 76 mil veículos no país, um aumento expressivo em relação ao ano anterior, colocando-a entre as oito maiores montadoras em participação de mercado, à frente de marcas tradicionais. No primeiro trimestre de 2025, já contabilizava 20 mil unidades comercializadas, alcançando quase 10% de participação no mercado automotivo nacional.
O projeto da fábrica da BYD em Camaçari é visto como uma oportunidade para o Brasil consolidar sua presença na cadeia global de veículos elétricos e tecnologias limpas, mas também como um caso emblemático dos desafios de atrair grandes investimentos estrangeiros, equilibrando desenvolvimento econômico, respeito às leis trabalhistas e a geração de emprego e renda local. O sucesso ou fracasso dessa iniciativa poderá definir não só o futuro da marca no país, mas também o papel do Brasil na transição energética mundial.
