Para economista do Bradesco, IA pode transformar produtividade no Brasil, mas juros elevados freiam avanço

O economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, avalia que a inteligência artificial pode ter um papel decisivo para aumentar a eficiência da economia brasileira e enfrentar um dos seus principais entraves históricos: a baixa produtividade. No entanto, ele alerta que o ambiente de juros elevados ainda representa um obstáculo relevante para que esse potencial se concretize.

A análise foi feita durante participação no VTEX Day, realizado na quarta (16), em São Paulo. Para o economista, a IA abre espaço para mudanças estruturais na forma como serviços são ofertados no país, especialmente ao ampliar o acesso à qualidade em regiões mais afastadas e ao reduzir custos operacionais em setores intensivos em informação.

Segundo ele, áreas como saúde, educação e serviços devem ser as mais impactadas pela adoção de tecnologias digitais e pelo uso de dados em larga escala, com ganhos potenciais de produtividade e eficiência.

“A tecnologia permite levar serviços de qualidade para regiões onde antes isso não chegava. Isso pode ter um impacto importante na eficiência da economia brasileira como um todo”, afirmou.

Apesar das oportunidades, Honorato destaca que o custo elevado do capital no Brasil tende a desacelerar esse processo de transformação. Em um ambiente de juros altos, empresas e governos acabam postergando investimentos em inovação e tecnologia.

“Com juros altos, a adoção de tecnologia fica mais lenta — e isso acaba atrasando ganhos de produtividade”, disse.

O economista também chama atenção para os efeitos desse cenário sobre o setor varejista, um dos mais sensíveis às condições de crédito e endividamento das famílias.

“O varejo é a grande vítima desse juro alto, seja através do endividamento das famílias, seja na alavancagem das companhias”, afirmou.

Para ele, o nível elevado de juros no Brasil não é apenas uma consequência de desequilíbrios fiscais, mas também um fator que retroalimenta a baixa capacidade de crescimento no médio prazo, ao limitar investimentos produtivos.

Ainda assim, Honorato vê espaço para um desempenho mais positivo da economia brasileira quando há estabilidade macroeconômica, aproximando o país de uma trajetória de crescimento global.

“Quando o Brasil consegue manter estabilidade, ele cresce mais próximo do mundo. O problema é a recorrência de choques”, afirmou.

No cenário internacional, o economista avalia que, apesar das mudanças recentes no fluxo global de capitais e das discussões sobre alternativas ao sistema financeiro tradicional, o dólar deve seguir como principal moeda de reserva mundial.

“Não é o fim do dólar como moeda de reserva”, afirmou Honorato. Em outubro de 2025, o economista já projetava que o câmbio tenderia a se aproximar de R$ 5,00 ou até ficar ligeiramente abaixo desse patamar, em um movimento associado à desvalorização global do dólar.

Ele também aponta que o Brasil pode se beneficiar em diferentes frentes no novo ambiente global, incluindo comércio exterior, transição energética e tecnologia, com destaque para o potencial do país em energia limpa, petróleo e expansão do mercado de data centers.

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