Embora mais de 70% dos profissionais de saúde utilizem inteligência artificial no dia a dia, apenas 9% atuam em instituições com adoção oficial e 13% veem a tecnologia integrada aos processos; falta de cultura e treinamento são os principais entraves, segundo levantamento do Instituto Opinion Box.
Apesar do avanço acelerado da Inteligência Artificial na área da saúde, sua aplicação nos hospitais brasileiros ainda ocorre, majoritariamente, de forma informal e pouco estruturada. É o que revela uma pesquisa realizada pelo Instituto Opinion Box em parceria com a Rivio, que aponta um descompasso entre o potencial da tecnologia e sua incorporação efetiva na gestão hospitalar.
O levantamento mostra que mais de 70% dos profissionais de saúde afirmam utilizar ferramentas de inteligência artificial em alguma medida dentro dos hospitais. No entanto, esse uso ainda é, na maioria dos casos, pontual, experimental e sem integração aos processos institucionais. Apenas 9% dos entrevistados trabalham em instituições que adotam oficialmente a tecnologia, enquanto 13% relatam que ela está de fato integrada às rotinas operacionais.
A pesquisa indica que o acesso às ferramentas já não é o principal obstáculo. O desafio, agora, está na implementação estruturada e estratégica da tecnologia. Entre os fatores que dificultam essa adoção mais ampla, destacam-se questões culturais e a falta de capacitação: 20% dos entrevistados apontam a ausência de uma cultura organizacional voltada à inovação como principal barreira, enquanto 18% mencionam o desconhecimento das ferramentas e 15% citam a falta de treinamento adequado. O custo aparece como entrave para apenas 12% dos profissionais.
Outro dado relevante do estudo é que a inteligência artificial tem sido mais aplicada em atividades de atendimento do que na gestão hospitalar. Entre as instituições que já utilizam a tecnologia, 47% a empregam em funções de linha de frente, como agendamento de consultas, monitoramento de indicadores e atendimento ao paciente. Em contrapartida, apenas 32% utilizam IA em processos de gestão.
A baixa adoção também se reflete em áreas estratégicas, como o faturamento hospitalar. Apenas 17% das instituições aplicam inteligência artificial nesse setor, considerado essencial para a sustentabilidade financeira. Segundo a Associação Nacional de Hospitais Privados, cerca de R$ 5,8 bilhões por ano deixam de ser recebidos pelos hospitais devido a problemas administrativos, falhas de comunicação e inconsistências em registros — questões que poderiam ser mitigadas com o uso estruturado da tecnologia.
Para especialistas, o cenário revela uma oportunidade significativa de transformação. “Existe uma grande oportunidade para a inteligência artificial gerar impacto real quando deixa de ser uma ferramenta isolada e passa a fazer parte dos processos críticos do hospital. Para isso, não basta disponibilizar tecnologia. É necessária uma mudança estrutural e de prioridade dentro da instituição, integrando profissionais da área assistencial e financeira – como enfermeiros, gestores e especialistas em faturamento – com engenheiros e especialistas em tecnologia para desenvolver soluções que façam sentido para a operação”, afirma Bruno Brasil, head de Operações da Rivio.
Já Felipe Schepers, diretor de Operações do Instituto Opinion Box, destaca que há consenso entre os profissionais sobre a importância da tecnologia para o avanço do setor. “Seja no atendimento ao paciente ou na gestão operacional, os profissionais entrevistados não têm dúvida de que as soluções de IA são essenciais para o avanço do setor de saúde”, diz.
Mesmo diante dos desafios, o interesse é alto: 80% dos profissionais de saúde demonstram vontade de utilizar inteligência artificial de forma oficial em seus ambientes de trabalho. O dado reforça a necessidade de investimento não apenas em tecnologia, mas também em treinamento e mudança cultural, para que a IA deixe de ser uma ferramenta isolada e passe a ocupar um papel estratégico na gestão hospitalar brasileira.
